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17 ANOS

17 anos?, pensei surpreso. será que o pai dela me perdoaria?
era do tipo que ainda assistia Malhação e tinha prova de química na terça.
puta calafrio que me dá só de pensar, prova de química na terça.
Malhação não deixa por menos e, pensando bem, consegue ser um negócio ainda mais bizarro. Quer dizer, embora já saibamos no que vai dar o lance com a química – recuperação, prova final e a reprovação por seis décimos -, pelo menos a tal prova nos pega em quatro episódios ao ano, enquanto a novela precisa de bem mais capítulos para pôr em xeque sua previsibilidade. pois bem, a adolescência é uma fase da vida meio barra pesada.

De uma forma ou de outra, o que eu quero dizer é que as meninas de hoje me parecem bastante evoluídas, vamos dizer assim, em relação às da minha época. O motivo talvez seja cultural, elas têm outras referências e tudo mais, no entanto o que sempre me encuca é o lance de que andam colocando anabolizantes nos alimentos, saca? pra eles ficarem maiores e pesarem mais na balança. e quando pega a meninada em fase de crescimento, é o que a gente pode chamar de deus-nos-acuda. e aí já viu: peito de frango bombado? seios em crescimento desproporcional. melancia bombada? bunda desproporcional. miojo bombado? cabelinho de surfista desproporcional. banana bombada? é melhor parar por aqui.
na minha época os alimentos eram mais puros, inclusive as bananas, por isso que… as meninas eram menores.
hoje não, você dá uma volta no supermercado e tem que ficar atento pra não levar um chute de uma berinjela estressada. e a rapaziada segue a mesma linha. ontem, por exemplo, um garotão-chicória resolveu socar algumas vezes a cabeça de um taxista bem em frente ao boteco onde eu estava, em frente a uma dessas casas de festas alternativas de Botafogo. porra, era madrugada, um tava curtindo, o outro, trabalhando, só aí a gente já vê quem é o covarde. o taxista tinha pra lá de seus 45 e era magro, usava aliança, cara de pai de família. o garotão parecia estar no alto de seus vinte poucos anos, cigarro na boca, do tipo que tava com a rapaziada, cheio de abobrinha na cabeça. depois de o taxista ter acertado boas cabeçadas na mão do rapaz, separaram e a situação voltou ao normal: o garotão entrou na festa e o taxista seguiu pra mais uma corrida.
Eu não sei o que originou a confusão, talvez o taxista até merecesse levar uns tapas, vai saber, mas acontece que eu sempre tenho raiva de quem se dá bem numa briga. quer dizer, é aquele esquema, “quando um não quer, dois não brigam”, então, se estão brigando, os dois é que se fodam! nada mais justo, afinal é uma puta idiotice ficar distribuindo mata-leão em marmanjo enquanto a mulherada dá sopa por aí.
aliás, voltando ao que interessa, essa de 17 era mais alta que eu e tudo, sem salto, e olha que eu tenho pra lá de 1,75. não parou de me olhar a noite inteira, eu dando uns tragos de cerveja, rock rolando, luzes, casa noturna, sorrisos, flerte, esbarrão, banheiro sujo, mais cerveja, fumaça, será que ainda tenho chiclete?, mão no bolso, ainda tenho, me olha outra vez, larica batendo, pisão no pé, desculpa aê, dj errou o som, faísca de isqueiro, rolou um toco ali, calcinha no andar de cima, a língua dela na minha… quando vi, ela já tava em cima. por cima. o sofá-cama ainda tava recolhido no modo sofá mas ela já tinha tirado minha calça e jogado longe, me poupando apenas os trajes de baixo. a língua dela era meio nervosa, girava de um lado pro outro na minha boca, de forma aleatória. digo, bem aleatória, do tipo que ignorava completamente os movimentos da minha. dane-se se minha língua ia pra esquerda, a dela continuava a girar loucamente. dane-se se eu reparava na disposição dos móveis do quarto, a língua dela continuava a girar loucamente. troço esquisito, portanto.
A essa altura, devo admitir, segurar o sono estava sendo uma missão um tanto quanto injusta. se tinha duas coisas que eu realmente queria ali, era comer e dormir. É bom esclarecer que quando digo comer, me refiro ao salgado que estava embrulhado sobre a mesa à minha frente. quer dizer, nada pessoal, é que esse lance com a língua me entediou um bocado, pura chatice, além do fato de, desde o momento que reparei, eu ter criado cisma com o dedão do pé dela, não fui com a cara dele. ele era um tanto roliço, com carne excessiva nas extremidades laterais que prendiam as unhas, fazendo com que parecessem espremidas. era evidente que aquelas unhas não se sentiam confortáveis ali e isso me incomodava. cheguei a me imaginar no lugar delas e confesso não ter achado nada agradável. elas me lembravam conchas parcialmente enterradas na areia. sabe como é, unha tipo concha semi-enterrada.
sobre o salgado, tinha sido comprado numa lanchonete qualquer, no caminho de volta. ela falou que era o pai quem pagava o cartão de crédito, aí não tinha problema. mostrei que sou do tipo que sabe corresponder às expectativas e pedi dois, mais um refresco. talvez isso ele não perdoasse.
Pois bem, estávamos no tal sofá, a juvenil limpando meus cisos, caninos e molares quando, de repente, “Roger Ben”, ouvi meio abafado. olhei em volta um tanto assustado e não vi ninguém, só o embrulho em cima da mesa. e a língua não parava de girar. “Roger Ben”, outro chamado. fiz a varredura e novamente só o salgado. dessa vez, tive a impressão de o embrulho ter se movido. na verdade, posso jurar que se moveu, eu o havia colocado no centro da mesa. agora, estava no canto. ou eu tô viajando? de qualquer forma, sem mais nem menos, meu estômago respondeu, de modo que fez a menina pular pra trás de susto – o ronco foi sinistro. Senti que o momento era oportuno e sugeri que já estava na hora de concluir o que a gente, supostamente, se propôs a fazer ao vir pro meu apê, se é que vocês me entendem.
“cheia de charme”, ela me lançou um olhar “sedutor” e disse que não rolaria nada de “extraordinário” – essa foi a palavra que ela usou. que, com base em sua teoria, caso rolasse, eu acabaria não telefonando posteriormente pra ela, já que se tratava de nossa primeira noite. sabe como é, essa lengalenga com cara de Malhação. segurei pra não rir, evidentemente. alguém precisava explicar pra ninfeta que esse tipo de interrupção não era nada convidativo, pensei. só pensei, eu é que não ia dar mais pano pra manga – o salgado tava esfriando.
bem, me levantei e fiz quase tudo o que devia ser feito: anotei o telefone dela, agradeci sinceramente pelo salgado, levei ela até o elevador e recebi uma bitoca de despedida. a única coisa que eu não fiz foi pegar o molho de chaves.
antes que a porta do elevador fechasse dei última conferida naquele dedão de pé anabolizado. era recíproco, ele também não ia com a minha cara.
o elevador desceu e bateu com a lateral em alguma peça no andar de baixo, fazendo reverberar pelo corredor o som de sempre, grave. Me virei em direção ao apartamento e vi a porta bater, sem mais nem menos. assim, de repente, como se fosse um troço corriqueiro, de maneira simples. normal, cacete, normalíssimo. o que é isso, acontece sempre por aí. quem nunca passou por uma situação dessas? pô, normalíssimo, aquele vento que bate.
Nervoso, eu? imagina.
sem chave, sem celular, sem calça, sem transa, sem salgado com refresco, oras. tem até um filme, se eu não me engano.

ainda pude ouvir “Roger Ben” novamente vindo lá de dentro do apê.
naturalmente, a noite acabou não sendo das melhores, mas tudo bem, o vizinho do 307 ia ter mais queixas a fazer para o síndico quando me visse no corredor, coisa que eu ia acabar sabendo com detalhes pelo Marinho, o porteiro mais sangue-bom de Botafogo.

ROGER BEN

GAROTO NOVO

Tava quente, apertado e úmido. gostoso, gostoso. eu dava umas mexidas pra ver se conseguia resposta e conseguia. em volta de mim uma película meio nojenta fazia uma espécie de contenção, aí eu dava uns socos e chutes pra testar a resistência e a coisa parecia boa, material de primeira. Tava tudo tranqüilo, podia ficar ali pra sempre. mas, claro, sempre tem alguém pra tirar nosso sossego: quando eu já tava desconfiando de toda aquela paz, de súbito, se deu um rebuliço, uma movimentação estranha, uns trecos vermelhos voando de um lado pro outro, uma enxurrada só. sacudi, sacudi, sacudi e do nada a coisa se acalmou. não por dentro – onde eu estava -, mas por fora, porque ali dentro o buraco era ainda mais embaixo, literalmente. sabe como é, você provavelmente já passou por isso. De qualquer maneira, quando me dei conta, um negócio gelado e grudento já tinha agarrado minha cabeça e destruído a tal da película protetora, ou será que a essa altura ela já tinha ido pro espaço? seja como for, pensei, se tinham dado baixa na contenção que eu passei um bom tempo testando (e realmente era resistente, eu batia sem perdão) com uma facilidade dessas, ao ponto de eu nem ter notado, o que é que podiam e possivelmente pretendiam fazer comigo? pois é, rapá, quase me borrei todo. uma sensação desagradável, portanto. apaporra! mas, ai, ai, não parou por aí, o diabo do negócio gelado e grudento resolveu mostrar que não estava pra brincadeira e começou a me puxar, aí eu contraí o pescoço, reforçando-o, pra minha cabeça não ser arrancada fora. covardia pouca é bobagem, hein?! se ao menos aquilo tivesse me pegado pela frente, talvez eu tivesse chance pra desferir os golpes que tanto havia treinado. de uma forma ou de outra, a força da puxada foi suficiente pra me fazer ver uma quantidade de luz absurda, muito branco, muita luz, frio pra daná, tudo meio fora de foco e de cabeça pra baixo, achei que tinha morrido. aí minha visão começou a melhorar e eu tive a impressão de ter visto uma mulher deitada, linda, me olhando. ela tava com as pernas abertas e – nisso eu me dei bem – sem calcinha. a mulher mais linda que eu já vi, olhando pra mim, rindo e chorando ao mesmo tempo. sem calcinha. vai saber… depois eu vi que tinha um zé mané ao lado dela, segurando sua mão e apontando uma filmadora pra mim. uma Hi-8 da Panasonic, daqueles modelos antigos, fita vhs grande, textura de imagem bacana, de manuseio simples, uma boa câmera. no entanto, além de me parecer que o zé mané chacoalhava demais a bichinha, pelo ângulo que ele tava era evidente até pra enfermeira que o enquadramento não devia ser dos melhores. pois bem, um zé mané completo.
Mas como eu ia dizendo, ele tava apontando aquele treco pra mim e, vá lá, vou dar um desconto, até que ele parecia ser um cara simpático e, errr… bem apessoado, vamos dizer assim. parecia ser gente boa. ele também chorava e ria ao mesmo tempo, gente esquisita essa, mas pelo menos tava vestido. ia ser coisa demais pra aturar num dia só, não é mesmo? ainda assim, não gostei nada de ver o tal segurando a mão de quem eu já considerava ser a mulher da minha vida. aí, quando eu pensei em resmungar alguma coisa, levei um encontrão no traseiro do tal do negócio branco e grudento que tinha me tirado a paz minutos antes. foi quando vi que se tratava de uma luva de borracha, apenas. hum, e eu com medo daquilo. sai pra lá, sai, xô. Outro encontrão no traseiro, dessa vez mais forte. aquele médico era mesmo da pesada. Tentei socá-lo e percebi que, aquilo que anteriormente me parecia um movimento perigoso, ali, naquele mundo novo, era recebido como um leve e quase involuntário reflexo muscular. meu braço, coitado, nem se mexeu. garoto novo, tem muito o que aprender ainda… Bom, aquilo tudo tava sinistro demais pro meu gosto e eu resolvi abrir o berreiro, alguém tinha que entender que eu precisava de um desconto, pô! e não é que resolveu? me colocaram nos braços da peladona deitada. ela olhou pra mim, firme, nunca vou esquecer, e eu retribuí, com um pouco de dificuldade, já que meus olhos tavam pesados pra caceta. nos fitamos por um tempo, eu fazendo uma baita força pra sustentar o máximo possível aquela troca de olhares. dei uma piscadela pra ela e ela sorriu. é, rapá, eu já podia descansar em paz, a gata tava ganha. o zé mané que se cuide, pensei. Peguei no sono e acordei agora, hoje, aos 32 anos de idade. eheh, bizarro. o tempo é um negócio engraçado: __________________________________
(completa aí, bicho).
Xuxa, xeu mandar um beijo pro meu pai e pra minha mãe. Seria bom tê-los por perto.

ROGER BEN

CAIXA PRETA

CAIXA PRETA

Foi esquisito pra caralho a minha primeira reação. fiquei tranqüilo, meio que em paz. A gente tinha se acertado na noite anterior e parecia que, enfim, as coisas iam mudar de rumo. Era madrugada; conversamos, nos acertamos e fizemos o que devíamos fazer, se é que vocês me entendem. O avião caiu inacreditavelmente de repente. e esse “inacreditavelmente de repente” era uma piada interna nossa, só funcionava com ela. ela teria rido, penso, aquele riso que fazia ela inclinar um pouco a cabeça pra trás e a gente podia ver que a voltinha do seu queixo, rapá, era na medida. o movimento era sutil, talvez ela nem percebesse que fazia. as coisas que eu dizia pra ela tinham um tom de genuinidade que me surpreendia. quando eu dizia, eu pensava: “cacete, isso é verdadeiro”, mesmo que fosse um “vai à merda, bicho”.
E, já que ela partiu dessa pra uma melhor (vai saber…), preciso dar os devidos créditos póstumos: ela é quem mostrou maturidade e mandou aquela mensagem, no último dia do feriado de Carnaval, quarta-feira de cinzas, às 22 hrs, eu já indo comer um China in Box de larica, sugerindo que a gente conversasse, pra se acertar ou não, mas pra deixar as coisas resolvidas de uma vez por todas. Agora me parece que talvez a gente tenha resolvido coisas demais – já não havia mais nada a ser dito ou feito, e aí, puf!, toma-lhe pane no sistema do avião. A caixa preta vai dizer o que houve, ainda não se sabe, os peritos estão trabalhando nisso, assim como os legistas cuidam dos corpos, os psicólogos cuidam dos parentes e os advogados cuidam dos processos. A vida segue, né?! de todo modo, penso que algum cientista precisa inventar um dia desses uma caixa preta pros homens também, do tipo que a gente pudesse saber o que a pessoa que nos interessa pensou diante da morte, naqueles segundos finais. duvido que passe novamente a nossa vida inteira ali, seria redundante e chato pra cacete. prefiro acreditar que a gente vê justamente o que não pôde, sabe? os lugares que a gente não conheceu mas que queria, as conversas que a gente não teve com pessoas que nos pareciam interessantes, eu em cima de um elefante gordo e fedorento (o elefante, digo) num passeio em plena savana africana, saca? esse tipo de coisa. agora, o que não falta é música, filme, poesia, papo de bêbado, frase de caminhão e tudo mais tratando da distância, da morte, de paixões mal resolvidas… a gente esbarra o tempo inteiro com elas por aí, mas, bizarramente, elas não nos preparam pra segurar a barra quando o trem chega pras pessoas que a gente curte. li em algum lugar que a vida é tipo isso: a gente andando numa linha de trem, sempre sabendo que há um vindo na direção contrária, firme como um… bem, trem. Às vezes ele dá sinal: a gente ouve a buzina ao longe ou vê a fumaça à frente, às vezes não, nos pega depois de uma curva, em silêncio. isso tem cara de ser coisa do schopenhauer. enfim. tem romântico que diz que a distância é só um cálculo. não tenho nada contra os românticos, gosto dos tiozões e dos porteiros sangue-bom. de qualquer forma, me propondo a seguir a tal lógica, seria legal saber quanto dá essa conta aqui:

eu tocando o rosto dela + ela me olhando desconfiada (não se sabe porquê) + eu bebendo e, de repente, ela propõe um brinde + o esmalte falhado da unha dela, azul + eu vejo ela ao longe, num bloco de Carnaval + ela sendo fria e quente comigo, dependendo do momento + os dentes dela, bicho, tu não acredita + os olhos dela, bicho, tu não acredita (2) + ela me deixando sem palavras usando argumentos que me parecem irrefutáveis em relação a um assunto idiota qualquer + a arte dela com a minha, foto, pintura, cinema e borrões fora de foco + ela sendo branquinha, cabelo preto, castanho, sei lá qual era a cor exata, olhos azuis e serelepe, meu tipo preferido.
Tudo isso, agora, com a seguinte subtração, fatal e factual: – ela.
Ela foi e teria deixado um monte de coisas em sua caixa preta, companheiro. a saudade não é um resultado exato.

ROGER BEN

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ROGER BEN